Infraestrutura, regulação, comportamento do consumidor e os desafios reais da eletromobilidade no país
A mobilidade elétrica deixou de ser uma promessa futura para se consolidar como uma transformação em curso no Brasil. O crescimento da frota de veículos eletrificados, a busca por soluções mais sustentáveis e o avanço da transição energética colocaram a infraestrutura de recarga no centro das discussões sobre o futuro da mobilidade.
Mas, para além do aumento no número de veículos, a pergunta que realmente importa é: o país está preparado para sustentar essa expansão?
Mais do que instalar carregadores, o desafio envolve planejamento energético, viabilidade econômica, integração com distribuidoras, segurança regulatória e visão estratégica de longo prazo.
A infraestrutura de recarga deixou de ser apenas uma questão técnica tornou-se uma decisão estratégica.
Para aprofundar esse cenário, conversamos com Márcia Loureiro, Diretora Conselheira da ABVE, e Ricardo Bacellar, fundador do Papo de Garagem, dois nomes relevantes quando o assunto é mobilidade elétrica e eletrombilidade no país.
O resultado mostra que o avanço dos eletropostos no Brasil depende de muito mais do que tecnologia: passa por regulação, ambiente econômico, comportamento do consumidor e, principalmente, previsibilidade.
Márcia Loureiro: Visão Institucional e Regulatória
Qual é hoje o principal desafio para a expansão da infraestrutura de recarga no Brasil na visão da ABVE?
Avaliamos como principais desafios:
• Viabilidade econômica
• Viabilidade técnica
• Inexistência de um Plano Nacional de Eletromobilidade com metas claras e de longo prazo para a descarbonização do transporte
• Incertezas regulatórias para investimentos em eletromobilidade
Tecnologias baseadas em capital intensivo e com imprevisibilidade de demanda no curto prazo precisam de previsibilidade para se consolidar. Sem isso, o investimento se torna mais lento e mais cauteloso.
Como a ABVE enxerga o papel de concessionárias, indústria e governo nesse processo?
Entendemos o papel das concessionárias de energia como habilitadoras do sistema e garantidoras do insumo principal da recarga elétrica.
Neste contexto, suas atribuições estão principalmente ligadas à garantia da capacidade da rede e à conexão eficiente dos eletropostos.
Quanto à indústria, entendemos como aceleradora da infraestrutura, seja ela automotiva (demanda), de energia (insumo) ou de tecnologia (hardware e software), já que se trata de uma jornada 100% digital.
Em relação ao governo, avaliamos como regulador e indutor da infraestrutura de recarga. Cabem a ele atribuições relacionadas principalmente à regulação, incentivos e planejamento.
O Brasil precisa de mais incentivos ou regulação para acelerar a eletromobilidade?
Incentivos, especialmente no início da curva de maturidade, sempre favorecem a viabilidade de negócios e tecnologias baseados em capital intensivo e com imprevisibilidade de demanda no curto prazo.
Iniciativas como diferenciação tarifária, redução de impostos e financiamento subsidiado reduziriam o custo de implantação, favoreceriam o retorno sobre investimento (ROI) e encurtariam o payback dos projetos.
Esse tipo de estímulo é essencial para acelerar a consolidação da infraestrutura de recarga no país.
Na sua visão, o que pode acelerar ou travar a eletromobilidade no Brasil nos próximos anos?
Dados recentes da ABVE em colaboração com a Tupi Mobilidade indicam que o Brasil já conta com 21.061 pontos públicos e semipúblicos de carregamento.
Na comparação com agosto de 2025, observamos um crescimento de 24,7% da rede de infraestrutura de recarga. Em relação a fevereiro de 2025, esse crescimento chega a 42%.
Dos 21.061 eletropostos existentes:
• 70% oferecem recarga lenta (AC)
• 30% são carregadores rápidos (DC)
O maior destaque está justamente no avanço da recarga rápida.
Nos últimos 12 meses, os eletropostos do tipo DC cresceram 167%, enquanto os AC avançaram 17%.
Consideramos que o ambiente regulatório acelera diretamente essa transição.
Um exemplo é a recente Lei 18.403/2026, no estado de São Paulo, que garante o direito à instalação de carregadores individuais em condomínios residenciais e comerciais.
Essa medida elimina uma das principais barreiras históricas da recarga residencial e já teve efeito imediato no aumento de novas instalações privadas e compartilhadas.
Além disso, um Plano Nacional de Eletromobilidade com metas claras e de longo prazo ajudaria na previsibilidade e no aumento da demanda.
O alinhamento estratégico entre indústria, distribuidoras e governo favoreceria o crescimento estruturado da oferta de recarga pública no país.
Ricardo Bacellar: Visão de Mercado e Comportamento do Consumidor
Hoje, a infraestrutura de recarga ainda é um gargalo ou já vemos avanços consistentes?
Ela ainda pode ser considerada um gargalo, principalmente porque estamos falando de um movimento muito novo em relação à história da mobilidade no Brasil e também pelo tamanho continental do país.
Grandes centros urbanos e regiões mais distantes, como Norte, Nordeste e Centro-Oeste, caminham em velocidades diferentes.
Mas, de maneira geral, estamos vendo avanços constantes.
A infraestrutura está crescendo em nível exponencial.
Só os carregadores rápidos cresceram 167% nos últimos 12 meses e já somam mais de 6 mil pontos.
Outro fator positivo é que o custo de implantação desses carregadores rápidos também está caindo.
Como toda tecnologia de ponta, à medida que ganha escala, o custo unitário tende a diminuir.
Então, sim, ainda existe gargalo, mas ele está bem administrado.
Os investimentos feitos para o crescimento dessa infraestrutura estão condizentes com o crescimento da frota de veículos que dependem dela.
Tendências como os super híbridos podem impactar o ritmo de expansão dos eletropostos?
Esse é um tema que precisa ser analisado com visão de médio e longo prazo.
Se olharmos para um horizonte de 10, 15 ou 20 anos, muito provavelmente sim.
A chegada dos super híbridos ainda é recente, mas a aderência do consumidor cresce em velocidade exponencial.
Essa tecnologia está ganhando preferência rapidamente e certamente vai representar uma parcela significativa da frota de veículos eletrificados no país.
Isso pode impactar a expansão dos eletropostos, mas principalmente mais à frente.
O avanço dos seminovos também pressiona a infraestrutura?
Sim, e esse é um ponto muitas vezes ignorado.
A necessidade por infraestrutura de recarga também é premente em função da venda exponencial de veículos eletrificados seminovos.
Não conta apenas a venda dos novos.
Em 2025, esse mercado já registra crescimento superior a 100% em relação ao mesmo período de 2024.
O BYD Dolphin, por exemplo, ocupou a segunda posição entre os carros mais vendidos em março, e estamos falando de um veículo 100% elétrico.
Só em seminovos, já ultrapassamos 38 mil veículos neste ano.
Tudo indica que vamos bater um novo recorde.
Isso exige uma infraestrutura preparada para uma frota eletrificada cada vez mais ampla.
Se você tivesse que apontar hoje um único fator que pode acelerar — ou travar a eletromobilidade no Brasil, qual seria?
Eu costumo usar uma frase que resume bem esse momento:
Tecnologia atrai. Pós-venda fideliza.
As marcas chinesas passaram com louvor pela primeira fase de relacionamento com o consumidor.
Tecnologia, design e política agressiva de preço agradaram em cheio e explicam boa parte do sucesso nas vendas.
Mas o grande teste ainda está por vir: o pós-venda.
Abrangência da rede, qualidade de atendimento, disponibilidade de peças, preços competitivos e agilidade de entrega.
É isso que vai definir fidelidade.
Será aí que o consumidor brasileiro entenderá quais marcas realmente vieram para construir presença sólida no mercado.
O que realmente acelera a eletromobilidade no Brasil?
Dois fatores são cruciais e ambos são econômicos: o custo do dinheiro e a carga tributária.
O automóvel é o segundo produto mais caro que uma pessoa compra na vida, atrás apenas do imóvel.
Nos últimos anos, a população vem empobrecendo e está cada vez mais difícil comprar um carro com recursos próprios.
O financiamento ficou caro.
Não é que isso inviabilize a venda, mas certamente poderíamos vender muito mais se o crédito fosse mais barato.
Mas o fator mais nocivo ainda são os impostos.
Hoje pagamos cerca de 55% de impostos sobre cada carro vendido.
Isso é uma situação insustentável.
E isso vale tanto para veículos eletrificados quanto para veículos a combustão.
Não importa a tecnologia, esse é um problema que afeta toda a indústria.
Se houver redução dessa carga tributária, o impacto no crescimento da mobilidade elétrica será enorme.
Conclusão
A expansão da mobilidade elétrica no Brasil não depende apenas da venda de veículos ou da instalação de novos carregadores.
Ela depende de uma construção mais ampla: previsibilidade regulatória, ambiente econômico saudável, planejamento estratégico e confiança de longo prazo.
De um lado, a visão institucional mostra que sem incentivos, regulação clara e integração entre governo, indústria e distribuidoras, o crescimento tende a ser mais lento.
Do outro, o mercado reforça que tecnologia sozinha não sustenta transformação: pós-venda, custo de financiamento e carga tributária continuam sendo decisivos.
Os dados apresentados por Ricardo Bacellar ajudam a materializar esse cenário.
O mercado de veículos eletrificados seminovos já registra crescimento superior a 100% em 2025, mostrando que a eletromobilidade deixou de ser uma tendência restrita aos lançamentos e passou a ganhar escala real no consumo.
Outro dado simbólico foi o desempenho do BYD Dolphin, que ocupou a segunda posição entre os carros mais vendidos no mês de março um marco importante por se tratar de um veículo 100% elétrico.
Só no segmento de seminovos eletrificados, o país já ultrapassou 38 mil unidades comercializadas neste ano, indicando um novo recorde e aumentando diretamente a pressão sobre a infraestrutura de recarga.
Ao mesmo tempo, o desafio econômico permanece como uma das maiores barreiras.
Hoje, cerca de 55% do valor de um veículo vendido no Brasil corresponde à carga tributária, além do impacto direto dos juros altos sobre o financiamento automotivo um fator especialmente sensível em um setor que comercializa o segundo bem mais caro da cesta de consumo da população, atrás apenas dos imóveis.
Mais do que acompanhar uma tendência global, o Brasil precisa decidir como quer liderar essa transição.
Porque eletropostos não são apenas pontos de recarga.
São pontos de partida para um novo modelo de mobilidade, uma nova lógica de consumo e uma nova estratégia para o futuro da indústria automotiva e energética no país.
Sobre os entrevistados

Márcia Loureiro é Diretora Conselheira da ABVE e executiva de Desenvolvimento de Negócios com mais de 20 anos de experiência no setor de energia, com atuação em Óleo & Gás, eletromobilidade, energias renováveis, governança e inovação. Especialista em infraestrutura de recarga, viabilidade de negócios e transição energética, atua na conexão entre energia, tecnologia e novos modelos de negócio. É Engenheira de Produção, com MBA pela FGV e programas executivos internacionais em Harvard e MIT.

Ricardo Bacellar é Mestre em Administração pela PUC-RJ, conselheiro consultivo para os setores automotivo e de mobilidade e graduado como Conselheiro pelo IBGC. Com mais de 45 anos de experiência no desenvolvimento de novos mercados e soluções, atua com foco em planejamento estratégico, inovação e tecnologias disruptivas. É fundador do programa Papo de Garagem e referência nacional em análises sobre indústria automotiva, eletromobilidade e tendências do setor.
Por Christiane Santos
