O setor elétrico brasileiro, historicamente reconhecido por sua resiliência e inovação, atravessa no primeiro semestre de 2026 um de seus testes de maturidade mais complexos e contraditórios.
O mês de março consolidou-se como o marco temporal de um descompasso crescente, revelando um realinhamento preocupante do Ministério de Minas e Energia (MME) que, embora busque solucionar gargalos imediatos, muitas vezes o faz em detrimento da hegemonia das fontes renováveis que o país se propôs a liderar perante o mundo.
Este cenário sugere que o Brasil pode estar mudando sua rota estratégica frente à proposta original de transição energética.
No centro dessa discussão esteve o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP 2026), certame desenhado para garantir o “lastro” do sistema através da contratação de potência.
Embora o objetivo oficial fosse assegurar inércia e estabilidade de voltagem frente à intermitência de eólica e solar, os resultados revelaram uma guinada significativa em direção às fontes fósseis: grande parte dos 16,7 GW foram contratados em termelétricas a gás natural e carvão mineral.
O aspecto mais controverso é a distribuição regional: o Nordeste, berço das renováveis, liderou a contratação desses novos projetos térmicos.
Tabela: Dados do Leilão de Reserva de Capacidade – LRCAP/2026
| Investimento Estimado | R$ 64,5 bilhões |
| Potência Total Contratada | 18,97 GW |
| Preço Médio de Contratação | R$ 2.334.731 por MW/ano |
| Deságio Médio | 5,52% |
| Novos Projetos (Entrega 2028/2029) | 46,72% |
| Ativos Existentes (Entrega 2026/2027) | 40,10% |
| Ampliação Hidrelétrica (Entrega 2030/2031) | 13,18% |
Essa escolha impõe um paradoxo operativo severo. Enquanto a região vive um problema sistêmico de curtailment (cortes forçados de geração) por falta de escoamento, o governo decide instalar massivos ativos fósseis que competirão pela mesma infraestrutura de transmissão.
PS: Darlan Santos é diretor-presidente do Cerne (Foto Divulgação)
Fonte: Eixo
