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Clima como estratégia de Estado: por que a agenda climática já redefine decisões no Brasil

A agenda climática deixou de ser uma pauta ambiental isolada para se consolidar como um eixo estratégico de desenvolvimento econômico, social e institucional no Brasil. Essa é a visão de Guilherme Syrkis, diretor executivo do Centro Brasil no Clima (CBC), que acompanha de perto a evolução desse tema no país.

Segundo Syrkis, um dos principais avanços dos últimos anos foi a compreensão de que política climática não pode estar vinculada a governos específicos, mas deve ser tratada como política de Estado.

“A agenda climática precisa ser contínua, independente de ideologia. É como educação ou saúde, exige planejamento de longo prazo e ações imediatas.”

Eventos extremos recentes, como enchentes e ondas de calor, aceleraram a mudança de percepção. Hoje, decisões públicas e privadas já incorporam variáveis climáticas de forma concreta. Isso significa que:

  • Projetos de infraestrutura consideram riscos ambientais
  • Políticas habitacionais analisam áreas vulneráveis
  • A gestão pública passa a integrar prevenção e adaptação

Guilherme Syrkis enfatiza que a inação climática é financeiramente insustentável. Os desastres naturais, cada vez mais frequentes e intensos, geram perdas bilionárias e impactam diretamente as finanças públicas dos estados.

“É uma pauta em que o custo da inação é muito maior do que o da ação. Para além dos impactos econômicos visíveis, há uma ‘morte silenciosa’ causada pelo calor extremo, que afeta principalmente as populações mais vulneráveis, sem acesso a climatização.”

Segundo ele, isso exige que gestores públicos desenvolvam um “óculos do clima”, integrando essa perspectiva em todas as decisões, desde programas habitacionais até projetos de infraestrutura, como pontes e portos, que podem ser impactados pelo aumento do nível do oceano. A prevenção e a redução de danos são, portanto, investimentos muito mais inteligentes do que a remediação.

“Hoje não dá para ser gestor público sem usar o ‘óculos do clima’”, resume Syrkis.

No setor de energia, o Brasil já apresenta avanços relevantes:

  • expansão da energia solar e eólica
  • uso consolidado do etanol
  • crescimento gradual da eletrificação

Mas o desafio permanece:

reduzir a dependência de combustíveis fósseis
equilibrar segurança energética e sustentabilidade

Além disso, o transporte ainda é um dos principais gargalos, especialmente pela dependência do diesel e da logística rodoviária

Outras agendas positivas incluem a contenção do desmatamento, a gestão eficiente de resíduos sólidos e a promoção de transportes sustentáveis (veículos elétricos e a etanol), que não só reduzem a poluição do ar, mas melhoram a qualidade de vida da população. “É uma agenda pró-vida”, resume Syrkis, ao falar sobre a intersecção entre energia e clima.

“A estratégia ‘No Regrets’, ou seja, sem arrependimento, propõe diversificar a economia local e preparar a população para o fechamento de indústrias poluentes, como as termelétricas a carvão no Rio Grande do Sul. O objetivo é garantir que essas comunidades não sejam deixadas para trás, identificando novas vocações econômicas, como indústria de veículos elétricos, armazenamento, turismo sustentável, agricultura com inovações tecnológicas e energias renováveis.”

A atuação do CBC se organiza em três frentes essenciais: Mitigação, Resiliência e Transição Justa.

  1. Mitigação: Investimentos em energias renováveis e transporte público para reduzir as emissões.
  2. Resiliência e Adaptação: Preparar cidades e estados para os eventos extremos que já não podem ser evitados, dada a “anomalia climática” atual.
  3. Transição Justa (já abordada neste material)

Para apoiar decisões mais estratégicas, o CBC desenvolve o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, que analisa os 27 estados brasileiros em diferentes dimensões, como:

  • emissões
  • governança
  • financiamento
  • adaptação
  • infraestrutura

A publicação funciona como um diagnóstico detalhado da situação climática no país, permitindo identificar desafios e oportunidades de forma mais precisa.

Ao contrário do que muitos ainda imaginam, a agenda climática não é isolada ela impacta diretamente áreas como:

  • economia
  • saúde pública
  • infraestrutura
  • energia
  • planejamento urbano

“Clima não é um tema à parte. Ele está conectado a tudo.”

A agenda climática também se conecta diretamente com o cenário global.

A dependência do petróleo, evidenciada em momentos de instabilidade internacional, reforça a necessidade de acelerar a transição energética.

“Cada crise reforça o quanto precisamos reduzir essa dependência e acelerar alternativas mais confiáveis.”

Ao mesmo tempo, o redirecionamento de investimentos globais cria novos desafios para o financiamento climático.

Para Syrkis, o mundo vive um momento decisivo: reduzir a dependência de combustíveis fósseis sem comprometer o desenvolvimento econômico.

O caminho passa por:

  • inovação tecnológica
  • novos modelos de financiamento
  • decisões políticas consistentes

E, principalmente, por uma mudança de mentalidade.

Apesar dos desafios, o Brasil possui uma posição estratégica.

Com recursos naturais, matriz energética relativamente limpa e capacidade de inovação, o país tem potencial para liderar soluções no cenário global.

“A agenda climática é uma agenda de ganha-ganha para o Brasil.”

Se antes o clima era pano de fundo, hoje ele é variável central nas decisões econômicas, sociais e institucionais.

O que antes era tratado como pauta ambiental, agora impacta diretamente infraestrutura, economia, saúde pública e planejamento urbano.

Empresas e instituições que ainda enxergam essa agenda como tendência… já estão atrasadas e mais expostas a riscos físicos, regulatórios e financeiros.

SOBRE O ENTREVISTADO

Guilherme Syrkis é Diretor Executivo do Centro Brasil no Clima (CBC) e do Climate Reality Project Brasil. Doutorando pelo Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE-USP), é mestre pela Universidade de Chicago e possui formação executiva pela Harvard Kennedy School. Cofundador da ABSOLAR, também atuou no Ministério de Minas e Energia e no BNDES.

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Se antes o clima era pano de fundo, hoje é variável central nas decisões.

O que antes era pauta ambiental, agora impacta diretamente economia, infraestrutura e planejamento.

Empresas e instituições que ainda tratam isso como tendência… já estão atrasadas e mais expostas.

Por: Christiane Santos

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