Nos últimos anos, uma mudança silenciosa vem transformando a estrutura das famílias brasileiras: as mulheres se tornaram maioria entre os responsáveis financeiros pelos lares do país.
Dados recentes mostram que 51,7% dos lares brasileiros têm mulheres como referência financeira, o que representa cerca de 41,3 milhões de mulheres sustentando suas famílias.
O crescimento desse fenômeno é significativo. Entre 2012 e 2024, o número de mulheres nessa posição aumentou cerca de 87%, revelando uma transformação profunda no papel econômico feminino dentro da sociedade.
Mas por trás desses números existe uma realidade complexa.
Grande parte dessas mulheres enfrenta desafios adicionais relacionados à desigualdade social. Estudos indicam que a maioria das mulheres chefes de família é negra e possui menor escolaridade média, evidenciando como questões de raça, renda e acesso à educação se cruzam nesse cenário.
Outro dado importante é a desigualdade salarial. Mesmo sendo responsáveis pelo sustento de suas casas, essas mulheres recebem, em média, cerca de 32% menos que os homens.
A diferença se torna ainda maior quando analisamos a realidade das mães solo, onde a renda pode ser até 41% inferior à de homens na mesma condição familiar.
Esse cenário revela que a discussão sobre mulheres provedoras não é apenas social — é econômica.
Quando mais da metade dos lares brasileiros depende da renda feminina, estamos falando de uma transformação que impacta diretamente:
- consumo
- dinâmica familiar
- mercado de trabalho
- políticas públicas.
Em outras palavras, as mulheres já são uma das principais forças da economia doméstica brasileira.
Por isso, mais do que reconhecer esses números, é necessário refletir sobre seus impactos.
O desafio da presença feminina na energia renovável
Se as mulheres já são protagonistas na economia doméstica, a realidade ainda é diferente em setores estratégicos da nova economia, como a energia renovável.
Um levantamento da International Renewable Energy Agency (IRENA) mostra que as mulheres ocupam cerca de 32% dos empregos em tempo integral no setor global de energia renovável.
A presença feminina é maior em funções administrativas e de apoio, mas ainda é significativamente menor em áreas técnicas, científicas e de engenharia.
Nos cargos de liderança sênior, por exemplo, as mulheres representam apenas 19% das posições.
O estudo também aponta desafios estruturais importantes:
- baixa participação feminina em áreas STEM
- menor presença em funções técnicas e operacionais
- dificuldades de acesso a formação técnica em países em desenvolvimento.
Além disso, quase metade das mulheres que trabalham no setor relatam ter enfrentado algum tipo de discriminação de gênero no ambiente profissional, com índices ainda mais elevados em regiões da América Latina e Caribe.
Apesar desses desafios, o relatório destaca que políticas públicas, programas de formação técnica, mentoria e ambientes de trabalho mais flexíveis podem contribuir para ampliar a presença feminina em um setor considerado central para a economia do futuro.
Se mais da metade dos lares brasileiros já depende economicamente de mulheres, será que o mercado e as políticas públicas estão preparados para essa realidade?
Fonte: Solange Monteiro para FGV e PV Magazine
