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Com o fim da Copa para o Brasil, termina também um dos maiores desafios do Sistema Elétrico Nacional

Enquanto milhões de brasileiros acompanhavam o placar, outra partida acontecia silenciosamente nos centros de operação do ONS.

No último domingo, a eliminação da Seleção Brasileira para a Noruega encerrou a participação do país na Copa do Mundo de 2026. Para os torcedores, foi o fim do sonho do hexacampeonato. Para o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), foi também o encerramento de uma operação especial que, durante semanas, exigiu planejamento, monitoramento e respostas em tempo real para manter o equilíbrio do Sistema Interligado Nacional (SIN).

O motivo pode surpreender quem está fora do setor elétrico.

Durante os jogos da Seleção, milhões de brasileiros alteram seus hábitos praticamente ao mesmo tempo. Parece apenas um comportamento social, mas, para quem opera a rede elétrica, esse movimento representa milhares de megawatts entrando e saindo do sistema em poucos minutos.

É nesse momento que futebol e engenharia passam a disputar a mesma partida.

O gráfico que conta uma história invisível

Figura 1 – Curva de carga do Sistema Interligado Nacional durante Brasil x Noruega. A linha pontilhada representa a carga esperada para o horário. A linha contínua mostra o comportamento real da demanda durante a partida. Fonte: ONS.

À primeira vista, o gráfico parece apenas uma curva de consumo.

Na prática, ele registra um dos maiores exemplos de comportamento coletivo já observados na infraestrutura elétrica brasileira.

A linha pontilhada representa o comportamento esperado da carga para aquele domingo.

Já a linha contínua mostra o que realmente aconteceu durante a partida.

A diferença entre elas revela o chamado “efeito Copa”: milhões de pessoas modificando simultaneamente o consumo de energia em todo o país.

Quando o jogo começa, o consumo despenca

Ao contrário do que muitos imaginam, a maior preocupação do ONS não é um apagão provocado pelo jogo.

O desafio está nas mudanças bruscas de carga.

Quando a partida começa, milhões de brasileiros fazem praticamente a mesma coisa ao mesmo tempo.

Os chuveiros deixam de ser ligados.

As cozinhas entram em pausa.

Máquinas de lavar encerram seus ciclos.

O país praticamente “para” para assistir ao jogo.

Durante Brasil x Noruega, o Sistema Interligado Nacional registrou uma carga mínima de 66.307 MW, cerca de 16% abaixo do comportamento esperado para aquele horário, segundo dados do ONS.

O intervalo: onze minutos que desafiam toda a operação

Se o início da partida reduz o consumo, o intervalo produz exatamente o efeito contrário.

Milhões de pessoas levantam praticamente ao mesmo tempo para preparar um café, ligar a air fryer, usar o micro-ondas ou abrir a geladeira.

Em apenas 11 minutos, a carga do sistema aumentou 7.128 MW.

É uma variação extremamente rápida para um sistema que precisa manter, em tempo real, o equilíbrio entre geração e consumo.

Após o apito final, um novo desafio surge.

As pessoas retomam suas atividades, os estabelecimentos voltam ao funcionamento normal e a demanda continua crescendo.

No jogo entre Brasil e Noruega, a retomada registrou uma rampa de aproximadamente 7.012 MW em cerca de 30 minutos, exigindo novamente respostas rápidas da operação do sistema.

Energia não pode esperar

Ao contrário de outros serviços essenciais, a energia elétrica precisa ser produzida praticamente no mesmo instante em que é consumida.

Por isso, o trabalho do ONS vai muito além de decidir quais usinas devem operar.

A cada segundo, a missão é manter o equilíbrio entre geração e demanda para preservar a frequência da rede próxima de 60 Hz, condição essencial para a estabilidade e segurança do Sistema Interligado Nacional.

Durante grandes eventos, esse planejamento começa muito antes do apito inicial.

O ONS reforça equipes, suspende manutenções programadas em equipamentos estratégicos e mantém usinas preparadas para responder rapidamente às oscilações previstas.

É uma operação invisível para a maioria da população, mas fundamental para que milhões de brasileiros assistam ao jogo sem sequer perceber a complexidade que existe por trás de cada quilowatt entregue.

A Copa de 2026 mostrou um novo desafio para o setor elétrico

Oscilações de carga durante grandes eventos esportivos não são novidade.

O que mudou foi o sistema elétrico brasileiro.

Nos últimos anos, a expansão acelerada da geração solar e eólica transformou profundamente a matriz energética nacional.

Hoje, além de prever o comportamento dos consumidores, os operadores precisam administrar uma rede cada vez mais dinâmica, influenciada também pelas condições climáticas e pelo crescimento da geração distribuída.

Nos jogos realizados durante a tarde, por exemplo, a geração solar permanece elevada enquanto o consumo residencial diminui devido à concentração de pessoas diante da televisão.

Já nas partidas disputadas no fim da tarde, como Brasil x Noruega, outro fator entra em cena: a redução natural da geração solar coincide justamente com a rápida retomada da carga durante o intervalo e após o encerramento do jogo.

Essa combinação torna a operação ainda mais complexa e reforça a importância de planejamento, flexibilidade e coordenação entre diferentes fontes de geração.

Muito além do futebol

Talvez a maior lição desta Copa não tenha acontecido dentro dos estádios.

Ela aconteceu nos centros de operação do Sistema Interligado Nacional.

O gráfico divulgado pelo ONS mostra que o maior desafio da engenharia elétrica brasileira já não é apenas produzir energia suficiente.

É operar, em tempo real, uma matriz cada vez mais renovável, descentralizada e dinâmica, capaz de responder simultaneamente às mudanças do clima e ao comportamento de milhões de consumidores.

É justamente por isso que temas como armazenamento de energia (BESS), digitalização da rede, inteligência artificial aplicada à previsão de carga e resposta da demanda ganharam tanta importância nas discussões sobre o futuro do setor elétrico.

A transição energética não depende apenas de gerar energia limpa.

Ela exige um sistema inteligente, resiliente e preparado para responder, em questão de segundos, às mudanças de comportamento de toda uma sociedade.

Enquanto milhões de brasileiros olhavam para o placar da partida, outro placar era acompanhado segundo a segundo nos centros de operação do país.

E nele, vencer significava manter o Brasil inteiro funcionando.

Por Christiane Santos
Fundadora do Plano A Informe | Comunicação Estratégica para Energia, Infraestrutura e Negócios

Fontes consultadas:

Capital Reset – Reportagem sobre os impactos da Copa do Mundo na operação do sistema elétrico brasileiro.

Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) – Boletins da Operação Especial da Copa do Mundo FIFA 2026 e gráficos oficiais do Sistema Interligado Nacional.

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